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A minha breve participação na política foi um desastre

Amigos meus têm-me questionado pelo meu silêncio no que toca a assuntos políticos da actualidade. Na verdade, deixei a política por tempo indeterminado. Militei no Bloco de Esquerda durante três anos e não gostei da experiência. Que fique claro que este meu abandono deve-se a razões de índole familiar, pois ser pai e vergar a mola num trabalho a sério, consome imenso tempo. Contudo, situações infelizes que presenciei dentro do BE só apressou a minha decisão de sacrificar o que achava ser irrelevante na minha vida.

Em finais de dezembro de 2012, pedi aderência ao BE em Vila Real, onde vivi sete anos da minha vida. Meses depois, mudei-me para o Porto e decidi continuar como aderente por lá.  Já conhecia alguns aderentes do Porto e fui informado que o Bloco iria apoiar uma candidatura independente. Fui ver como aquilo era e dar o meu contributo pela primeira vez. A impressão que tive foi negativa. Fizeram-se grupos de trabalho, e fui literalmente "chutado para canto". Sim, era novo ali e quase todos não me conheciam mas também havia alguns aderentes do BE que sabiam quem eu era mas não se deram ao trabalho de me integrar no grupo. Foi para mim um momento embaraçoso saber que estava ali a mais. Já no rescaldo da reunião, integraram-me num pequeno grupo de trabalho mas a minha decisão estava tomada: ainda não é o momento certo para perder o meu valioso tempo com isto.

No entanto, estive no Rivoli a apoiar a candidatura do José Soeiro à câmara e no dia das eleições estive presente na sede da campanha onde mais uma vez estava ali a fazer figura de emplastro, no meio de gente de estilo aristocrático e elitista, que em nada se enquadra com um partido de esquerda anticapitalista. Nas poucas vezes em que fui chamado a participar nas actividades do partido, saltou-me à vista a superioridade moral de alguns camaradas. Naquela altura, ainda o Bloco procurava emergir das cinzas após o desastre nas autárquicas e nas europeias, topava-se à distância quem seriam os futuros "assalariados" ou proeminentes dirigentes partidários com a total complacência da estrutura do partido que lhes faziam a cama. Bastava vê-los como subiam ao púlpito com ar snob. O Esquerda.net é, inclusive, uma rampa de lançamento dessas "pérolas". É que todos tinham algo a dizer e quase tudo que diziam eram banalidades: falavam de boca cheia do socialismo, do marxismo, da revolução, dos direitos dos trabalhadores, da precariedade mas na verdade nunca "vergaram a mola" mas lá continuam, sem pudor,  refastelados nas estruturas do partido.

À excepção de dois ou três camaradas que sempre acreditaram que eu podia ser uma mais-valia dentro do BE, outros camaradas nem por isso e só sabiam que eu existia quando havia eleições internas. Camaradas com quem colaborei algumas vezes em acções internas, passavam por mim na rua e viravam a cara ao lado.  Não guardo rancor por se terem esquecido de mim. Apesar de tudo, o Bloco continua a merecer o meu voto, até porque não se deve confundir as árvores com a floresta mas como estrutura deixa muito a desejar. Ao longo destes três anos, também conheci gente íntegra e com carácter. A esses, um bem haja.








Porque eles têm medo?

Apesar de achar que é uma boa ideia, considero pouco provável que haja um governo à esquerda com o PS. Não obstante, foi interessante ver a direita assustada e aterrorizada com a possibilidade dos comunistas e bloquistas subirem ao poder. É natural. Um governo de esquerda acabava com os privilégios e com as regalias e os jobs for the boys que sempre foram prática corrente dos partidos de direita (PSD, CDS) e do centro (PS). Era o fim da promiscuidade  entre política e negócios e do aparelho de estado partidarizado. Vê-los à nora, apreensivos, assustados foi gratificante. Um bálsamo!


O vingativo Cavaco Silva e o futuro da esquerda


O Cavaco Silva  foi um mau presidente  e  um dos rostos de uma elite privilegiada e que, indubitavelmente, representa o lado mais cavernoso da promiscuidade entre a política e os negócios mas tem características que não lhe podem negar: o Cavaco é um político calculista, manipulador, vingativo e que não olha a meios para derrubar os seus adversários. Seguindo à risca a sua militância partidária, será a intenção de Cavaco Silva empossar um governo minoritário de direita para que possa governar em litígio com a oposição durante os próximos seis meses até que o novo presidente da república dissolva o parlamento e convoque novas eleições . A coligação de direita, sem conseguir impôr o seu programa durante seis meses, vai continuar a fazer o papel de vítima e acusar a oposição de fazer maioria negativa. A comunicação social fará lobby a favor da direita como tem estado a acontecer e no final de tudo isto, a direita conta em ganhar com a maioria absoluta. Este cenário, evidentemente penalizaria o Bloco e a CDU e o PS não ganharia as eleições nas próximas duas ou três legislaturas.


Enquanto não houver outra estratégia sólida para tirar a direita radical do poder, só há uma possibilidade para a esquerda não sair prejudicada, que é viabilizar um governo progressista com acordos parlamentares com o PS, mas ficaria, igualmente, dependente do aval de Cavaco Silva que tudo fará, até final do seu mandato, para que a sua família política se perpetue no poder.

Os próximos seis meses serão decisivos para a esquerda. A direita e extrema-direita vão jogar o seu futuro nos bastidores, tendo a comunicação social e os grupos económicos como cães de fila no intuito de assustar e lançar o caos na opinião pública. É assim que funciona a ditadura das elites modernas. Recomenda-se aos partidos de esquerda uma análise minuciosa e concreta daquilo que a maioria sente e se possível juntar forças e dar-lhes um rumo certo. A luta de classes  nunca esteve tão evidente como agora.


Coligação de direita ressabiada

Era desejo da PàF ganhar as legislativas com maioria absoluta. Todos os seus apoiantes tinham isso como única prioridade, uma meta importante a traçar, o que acabou por não acontecer. Depois de todas aquelas sondagens, algumas que apontavam o limiar de uma maioria absoluta, a coligação de direita não foi além de 37%, perdeu mais de 700 mil votos e ficou sem 30 deputados e fica, agora, dependente de uma oposição maioritária para poder governar. Em termos práticos, a direita perdeu em toda a linha. Ou seja, toda a direita  com assento parlamentar, teve menos votos que PS, BE e CDU todos juntos. Só um ressabiado pode falar em vitória clara.

A única vitória de consolidação da direita ficou-se pela possibilidade de o PS viabilizar o novo governo. Não é crível que este governo dure uma legislatura. Se durar, foi porque o PS lhes deu mão e pouco ou nada ganha com isso, a não ser que lhe aconteça o mesmo destino que o Pasok.

É lógico que nem tudo é positivo para aqueles que combatem o sistema. Os três partidos do arco da governabilidade, embora mais fragilizados,  continuam a mandar no país, mas a esquerda liderada pelo BE e CDU  saiu destas eleições mais reforçada. Um bálsamo para as lutas que se avizinham.

Um País de Doutores - Salazar como Miguel Relvas

Professor Doutor António de Oliveira Salazar - Universidade de Coimbra


Portugal, um país de doutores ditadores

Continuo a achar valorosas as pessoas sem nenhum título académico. Soube agora de uma esquecida e muito original lei, que transformava como que por magia alunos da segunda década do século XX, em génios de sapiência renascentista, mestres na oralidade, e guias de um povo sem pai. Salazar figura neste altar.

Salazar foi recebido com júblio em Santa Comba Dão, pegar de estaca não é para todos, e este filho de proprietário rural, fez um grande estrondo em Abril de 1918. Salazar, um doutor de largou a enxada paterna, e pegou no chicote. E Miguel Relvas, esse, saiu da estrebaria paterna no Alto Alentejo, para tomar conta do Paço. Num caso, como no outro levaram Portugal à miséria, num caso como no outro, foram nomeados por uma pseudo elite caciquista de doutores. 

"1918. 19 de Abril: Salazar obtém a nomeação de professor ordinário da Faculdade de Direito de Coimbra, com dispensa de prestação de provas. Depois, por concessão graciosa do conselho escolar, obtém o grau de "Doutor em Direito", sem ter feito o concurso de doutoramento. Invoca-se a lei nº 616 de 19 de Junho de 1916. E passa à frente de colegas mais antigos, como Fezas Vital e Magalhães Colaço. A lei é de autoria dos afonsistas... São os chamados professores decretinos."

Fonte: José Adelino Maltez 

Alijó 1974


O 25 de Abril em Alijó

A Revolução dos Cravos foi a primeira revolução a extravasar as portas de Lisboa e Porto em toda a nossa história graças aos meios de comunicação e ao pútrido estado de decomposição do regime ditatorial. 
O testemunho que publicamos no dia em que se comemora a hora primordial do grande acordar após 48 anos da mais longa ditadura fascista da Europa, levou-nos até Alijó. Surpresa, não há surpresa nenhuma! Uma terra ligada nevralgicamente ao trabalho braçal, que tem por último producto o Vinho do Porto, e do Douro, teve as suas jornadas de luta por melhores condições de trabalho, democracia e governo pelo povo, e não para se servir dele. 

Observamos nas faixas clamores pela libertação das forças aprisionadas dos trabalhadores, uma exigência de democracia plena e de base social, que põe fora do jogo democrático, quem pretendia dar tão pouco, que era quase nada. 

Os 580 dias de Revolução estão vivos nesta foto, uma imagem de um país que se encontra agora mais perto dos 48 anos de fascismo do que dos 580 dias de liberdade, solidariedade e luta, que também se viveram em Trás-os-Montes e Alto Douro. 

Infelizmente o abalo democrático não foi determinante, os reaccionários seguraram-se bem às fragas,organizaram-se, e reagiram, principalmente no Norte, enquanto a esquerda se batia pelo esclarecimento, pela alfabetização, pela dinamização sociocultural, as noites da direita e até do centro (conhecidos hoje como o como arco da bancarrota), conspiravam, combinavam a partilha de dividendos, e perpetuaram atentados como resultado dessas noitadas "revolucionárias". 

Que nos conta a imagem. Fala de passado, mas também fala dos dias de hoje, de um país se foi deitado para a borda da estrada, como um guardanapo, enquanto a burguesia democrata come o bolo da revolução, na sua avenida triunfal e nós ficamos a assistir. 

Não, não estamos a assistir, não gostamos de assistir, se esta fotografia saltou do seu anonimato para as redes sociais, é porque existe realmente a urgência de fazer um novo 25 de Abril.

E quanto aqueles que ainda despositam esperanças na social-democracia, ou aqueles que se sentem ultrajados pelos seus líderes partidários, mas por amor, não abandonarão o partido. A esses, vamos deixa-los entretidos, com o ego roto, não é a nossa praia, nem a nossa seara.